por C.A. - Quinta-Feira, 22 de Junho de 2006, às 20:06
Escrevo esta peça poucas horas antes de se iniciar o terceiro match da seleção brasileira na Copa do Mundo e o faço não porque me vá lançar a discorrer sobre futebol – mas antes ao contrário, o anti-futebol: o Sr. Carlos Alberto Parreira. Pouco me importa o resultado e até o provável êxito do escrete canarinho na Alemanha: tenho pavor de Carlos Alberto Parreira e raros seres humanos me parecerão menos literários.
Deve haver algum limite – que não um ataque cardíaco – para o exercício da sisudez. Seriedade, sim, tudo bem. Trabalho é trabalho. Mas que tal um sorriso – um improviso? Por que não um sorriso – um improviso? Afinal, minha gente: este senhor treina a seleção brasileira, o time de todos os dribles, dos movimentos impossíveis, dos gols de antologia, da penta história que faz tremer! (Afinal: este senhor – avisem-no – treina a seleção brasileira e não o time do Vasco).
Parreira, a caricatura do emburrado, o falso polido, trava o talento, breca o gênio, imobiliza a criação, interdita o gol – que faz passar por detalhe se bem-armada estiver a equipe. É um professor, um estrategista… É um dos toscos inimigos do esporte que fez o mundo – pobre mundo – crer que técnico de futebol tem alguma importância. É o poeta de si mesmo: Parreira. É o poeta do egoísmo – e poesia onanista é verso que não há.
Mil vezes então o roliço Feola, aquele que cochilava no banco de reservas enquanto Didi, Garrincha e Pelé resolviam o jogo a jogar futebol. (E pode haver poesia maior, mais humana, que um treinador que cochila durante a partida)? (Pode haver prova maior de humildade, de reconhecimento da irrelevância do treinador de futebol)? Mil vezes também João Saldanha, que andava armado, dava soco na mesa, dizia que Pelé era cego – mas que não se vendia de gente fina, que pinta quadros de marina. (Pode haver maior vilipendio à arte que um técnico de futebol que faz vernissage e fala longamente sobre Matisse e Cézanne)?
Mil vezes Zagalo, que faz política, afaga cartola, leva o Dadá e se exige engolido – mas que grita apaixonado, insiste comovido, o autêntico, que vibra, que se despenteia grisalho, enlouquecido pelas conquistas e pelo desejo das conquistas, e que assim morrerá, não espere outro fim, na beira dum gramado. (Pode haver outra sorte de poesia épica que não Zagalo)? Mil vezes até Vanderlei Luxemburgo, com aquela canalhice brega, com aqueles ternos de berrar ascensão – mas que resulta, que faz jogar quietinho o medíocre, o atleta outrora desprezado, e que agita, que dá porrada no Edmundo, que fala mal de jogador-medalhão na imprensa. (Pode haver poesia menor que a de Luxemburgo)? (E todavia poesia não haveria – e tampouco o gosto pelo poético – não fossem também os poetas cafajestes).
Pouco me importa o resultado e até o provável êxito do escrete canarinho na Alemanha: tenho pavor de Carlos Alberto Parreira e lamento que futebol mágico não haverá até o triunfo derradeiro. E é assim que qualifico uma vez mais este senhor – por fim: Parreira, o estrategista do desperdício.
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Ocorre-me agora que Carlos Alberto Parreira estabeleceu na seleção brasileira uma sorte de disciplina mui semelhante a das academias de letras: para sair do time, só morto.
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“Ninguém se chama Andreazza por acaso.” (Nelson Rodrigues - O Globo, 22/05/1970).


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