por C.A. - Quinta-Feira, 25 de Maio de 2006, às 20:15
Tenho implicância conceitual com a instituição entrevista coletiva – a novíssima e onipresente farsa a aprofundar o anti-jornalismo e a rebaixar a informação relevante ao limbo. Assim, o absurdo: o jornalista que rejeita o desmoronar evidente de sua profissão e se esforça por atravessar a barreira do faz-de-conta jornalístico será progressivamente um chato – um inconveniente. Já vi inclusive casos de jornalista repreendido por jornalista após propor questão que não agradava ao entrevistado – o coitadinho. É a inversão máxima de valores e o cenário festivo das coletivas, com efeito, favorece a distorção: uma pergunta séria e coerente que todavia incomode o entrevistado passa de súbito a desrespeito e até a agressão, e o jornalista que a lança, a mal-intencionado e até a inimigo. É o jornalismo a serviço do puxa-saquismo publicitário e a informação pública relevante ao limbo, agora o defino, do favorecimento privado.
(Numa entrevista coletiva, o entrevistado se põe intocável - inatingível - e o entrevistador, o marginal, é diminuído ao limite do tolerável). (Chegará o dia em que será, por exagero do ridículo, oficializada a entrevista sem entrevistador - o monólogo coletivo).
Agora então, tempo de copa do mundo, será o auge da farra das declarações ensaiadas e politicamente corretas sem chance de contestação, e portanto o paraíso para o jornalista medíocre reprodutor do superficial e desejoso de umas férias na mansão de Barcelona do craque, cercado de mordomias e acarinhado de putas carnudas: o jogador lá em cima, superior e ainda mais pois que sobre um palanque mui-mui iluminado, este naturalmente tomado de propagandas mil – o que afinal importa! –, a responder de longe e como quiser e se quiser, passando-se por vezes, quando exigido pelo exercício sério do jornalismo, de juiz e filtro privado e muito cafajeste do que entretanto será de público veiculado, dando com gosto, a alargar sem discrição a mentira impressa, preferência ao jornalista camarada, que pergunta amenidades e bajula o ego onde mais não há para inflar.
(Igualmente o presidente-parati tem horror a entrevistas e com o agravante de que os miseráveis jornalistas imploram ao menos por uma coletiva – que raras vezes sai). (Lula, o intocável senhor onipotente guiado pela ignorância da intuição, nega-se a dar até uma entrevista que todos sabem de mentira).
Outro dia, por ocasião do anúncio dos convocados para o mundial, o treinador da seleção brasileira concedeu uma entrevista coletiva modelar - uma coleção de desprezos pelo esclarecimento. Só respondeu o que lhe aprouve e ainda assim sempre lacônico – como se fizesse um favor, distribuindo migalhas de consideração à mendicância jornalística. À noite entretanto, num programa esportivo da tevê Globo, lá estava o mesmo Parreira, sorridente, desta vez solícito a responder uma a uma todas as perguntas – inclusive aquelas a que se negara de manhã como se fossem inconfidências de caráter pessoal. Depois, constrangido, o treinador teve de ouvir calado os vários agradecimentos do vaidoso apresentador, que agradecia também pela velha parceria entre ambos, ele e o técnico, a Globo e a CBF – uma lamentável exibição a cabo da promiscuidade jornalística que, reforçada hoje pela impossibilidade de acesso à notícia consistente numa coletiva farsante, privilegia uns poucos onde natural deveria ser o equilíbrio e, por fim, achaca o valor incontornável da livre informação.


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