por C.A. - Segunda-Feira, 10 de Abril de 2006, às 19:21
Leio agora com gosto que o Império Serrano renovou para 2007 o compromisso com os que lhe ajudaram a fazer um belo desfile no carnaval que passou faz pouco – sem dúvida, o melhor em que já tomei parte nesses catorze anos de desfiles pela escola. É um sinal de esperança. Foi, sim, um belo desfile e, pelo menos no que me interessa, não houve outro mais bonito em 2006 – não houve.
Não se pode todavia parar por aí. É necessário prosseguir, dar novos passos – e sem pressa, sem gigantismo, sem o equívoco da imitação. O caminho do Império Serrano é outro, é único, e a escola tem de compreender rápido – e talvez já compreenda – que é uma alternativa saudável aos que gostariam de fugir dos desfiles marciais e, ainda assim, desfilar entre as grandes, entre as poderosas.
Se talvez seja hoje quase impossível ganhar a disputa – a esperança todavia sempre permanecerá –, há espaço no grupo especial para a sorte de carnaval que faz o Império Serrano e o imperiano precisa saber disso; precisa saber explorar isso. É menos uma questão de sobrevivência do Império que do próprio carnaval das escolas de samba. Em outras palavras, ainda é possível brincar o carnaval e ainda é possível brincar o carnaval no Império Serrano – no glorioso Império Serrano. Precisamos valorizar isso. É o futuro!
É o futuro e é naturalmente, sem incoerências, um futuro que exige o passado – que ressalta o passado. Escolas tradicionais como o Império e também a Portela, de hábito com problemas financeiros, têm a obrigação de recorrer sempre ao passado, à história, para assim superar quaisquer dificuldades. Acredito nisso. Elas podem e talvez só elas, além de Mangueira e Salgueiro. Trata-se no mínimo de uma obrigação com a inteligência. Trata-se de infinito ar para os sufocos de um negócio que se tornou profissional e caríssimo: a história como fonte inesgotável de soluções simples e criativas. Sinceramente, não importa ganhar o carnaval se o imperiano tiver a convicção de que não haverá jamais um campeão antes de seu desfile. É esse o espírito.
A entrada do Império na avenida em 2006, a visão de seu “pede-passagem”, lá onde se lia o nome da escola e sob o qual vinha uma criança reverente a apresentar o pavilhão verde e branco, foi o grande momento de meu carnaval particular e foi sobretudo o grande momento de que precisava o Império Serrano – sem dúvida ainda a curar as doenças da terrível década de noventa, quando, progressivamente vilipendiado, chegou a homenagear o engodo Beto Carrero, e isso na ocasião em que completava cinqüenta anos de existência…
De modo a dar seqüência ao movimento de valorização de suas coisas – movimento que é também esforço por se reerguer –, em 2007, ano em que completará sessenta anos, nada poderia ser mais extraordinário para o Império Serrano que um enredo a homenagear Dona Ivone Lara. É a minha sugestão à diretoria. Seria o auge de um alvissareiro percurso de resgate da auto-estima imperiana, iniciado em 2001 e reforçado pelo fabuloso desfile de 2004 – aquele em que se reeditou “Aquarela brasileira”.
Que outra escola poderia fazer tamanho carnaval e trazer a cidade consigo – inteira? Que outra escola poderia fazer tamanho carnaval a homenagear uma força viva de sua história e assim a homenagear a si mesma – e com imensa propriedade? E por que não também a Portela, com Monarco, com Paulinho da Viola? Por que não? Sim, eles estão vivos! Dona Ivone Lara está aí, viva, brilhante – e é compositora da escola; é gente do Império Serrano. Seria um grande momento… O grande momento! E nada poderia ser mais justo, mais simpático, mais generoso, mais profícuo. Nada poderia ser mais atraente. É a minha honesta sugestão.
Saudações imperianas,
Carlos Andreazza (Rio, 09/04/2006)


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