por C.A. - Quinta-Feira, 2 de Marco de 2006, às 19:19
O Império Serrano passou lindo, leitor, e eu estou ainda sem voz – e eu estou ainda emocionado, leitor. Com efeito, não poderia ser melhor o desfile – e isso de acordo com o duro caminho da escola em busca de si mesma. A escola caminha e estamos todos satisfeitos. Orgulhosos. A escola se reergue, leitor, e vai aos poucos retomando seu lugar entre as grandes.
Talvez não brigue nunca mais por títulos – embora viva esteja sempre a esperança. Talvez não brigue nunca mais por títulos – mas é certo que há lugar para o Império Serrano entre as poderosas; é certo que há lugar entre as poderosas para a sorte de carnaval que faz o Império Serrano. Em outras palavras, o carnaval de 2006 mostrou que há ainda campo para a tradição e assim me permite escrever satisfeito a redundância que faz anos me escapava: o Império Serrano fez um desfile de Império Serrano.
Pela primeira vez desde que desfilo, pela primeira vez em catorze anos portanto, a escola fez um desfile completo, um desfile de se respeitar, de cabeça erguida, desfile de escola nove vezes campeã do carnaval, não só com o brilho de um samba-enredo extraordinário e com a cadência única de uma bateria impecável, mas também – enfim – com fantasias bonitas, bem-acabadas e por vezes até luxuosas, como exige a tradição imperiana, e com alegorias dignas. Já ao chegar na concentração e percorrer a armação da escola, pude ver com entusiasmo que o Império vinha forte e que a velha marra do imperiano tinha como se impor de novo, com razão. Havia até traços de organização - uma raridade. Ao contrário de anos passados, a escola não fazia feio diante por exemplo da muito mais luxuosa Unidos da Tijuca, que nos antecedeu na avenida. Era um Império Serrano bonito e sobretudo honesto, que não se envergonhava qual um bloco de sujos frente à riqueza concorrente. Era um Império Serrano, como gosto de dizer, da antiga, ou seja: uma escola a que se deve aguardar antes de proclamar um campeão. Deu-me gosto de pensar ali na concentração – sinceramente: não há vencedor antes deste Império desfilar.
É evidente que a escola ainda peca – e peca muito: a ala de passistas sem fantasias é um acinte e quanto mais no Império Serrano, onde nasceram e se firmaram inúmeros passos da dança do samba. A comissão de frente com pretensos ares de Imperatriz não combina com a tradição de simplicidade da escola e restou incompreensível por fim. É preciso ter cuidado: o Império se moderniza e é ótimo – mas convém calma; convém um avanço por vez e tudo medido. Como já escrevi e como escrevo sempre: a diferença de escolas como Império e Portela é a história – que precisa ser incondicionalmente valorizada como recurso de fazer superar quaisquer adversidades e sobretudo as financeiras. Trata-se uma bagagem exclusiva – e que pode, sim, fazer a diferença.
Foi muito bom – e emocionante demais – ver depois, na tevê, o histórico “pede-passagem” do Império Serrano a trazer de novo o nome da escola escrito em destaque, sob o qual se apresentava, com elegante reverência, a bandeira verde e branca. Lindo. Em seguida, a ala do jongo da Serrinha e assim o Império Serrano a dar terreno nobre para os seus; o Império Serrano a se lançar na avenida amparado pelo que tem de mais caro: a tradição que permanece viva; a tradição com viva força de permanência. No abre-alas: a Coroa Imperial – que jamais poderá faltar. Um começo arrebatador para quem conhece e gosta do carnaval das escolas de samba.
Confesso que entrei na avenida tomado pelo prazer de brincar solto o carnaval moleque no qual acredito - e que ainda é possível no Império Serrano, com “flores e alegria”. Levei onze amigos comigo e via no rosto de todos também a expressão do prazer - e para alguns o prazer da descoberta, do primeiro desfile. Todos a cantar, a ala inteira a cantar, a grandiosa escola a cantar em harmonia e a incrível resposta do público ao samba extra-classe – e isso mesmo às cinco e meia da manhã. O bom samba tem dessas coisas: faz brotar energia onde a regra seria o cansaço. Como bem notou o Foca, aliás, o excelente samba do Império ainda encontrou forças para crescer na avenida e a escola cresceu junto. Foi um desfile que se reforçou à medida que evoluía, de modo que chegou inflamado ao final, com a bateria a levantar o setor 13 onde, apesar da omissão da imprensa, ouviu-se bem alto – sim – o grito de “é campeão”. Não importa. O Império Serrano, oitavo colocado, fez um desfile importante e importante para si; importante para o que virá a seguir.
Que venha 2007.


deixe seu recado