por C.A. - Terca-Feira, 7 de Fevereiro de 2006, às 19:17
Não sou um tipo apaixonado por cumprir anos, de modo que meu aniversário – que se avizinha perto – servirá para mui pouco e servirá portanto para tentar fazer sustentar este texto, que pretendo quase uma reflexão, uma sorte de balanço irregular das águas recém-desaguadas, embora corra consciente sobretudo o risco de alinhavar, ou seja, de tecer com ponto frouxo, sem caráter e na mais lânguida pegada da pieguice, o cafoninha de questões e reminiscências pessoais que o bom-senso sugere que como pessoais para sempre restem. No entanto, tal qual já sabido no terreiro da incoerência em que me embalo, que se dane o bom-senso – é carnaval e o Império Serrano está lindo.
(Fevereiro é um mês essencialmente carnavalesco e nunca poderei ser mais feliz). (A felicidade carnavalesca todavia tem fim – precisa ter fim, para que a suprema vontade momesca renasça das cinzas – e por isso a minha pressa candente e o desejo cadente de onipresença, de curtir a festa toda, a farra toda: quero enfim brincar o carnaval como se um beijo, o beijo, aguardasse-me ali na esquina). (Acredito no carnaval e acredito no beijo). (O Império Serrano ganhará o carnaval e o que importa agora é tão-só esta minha esperança).
Haverá algo de extraordinário a se passar comigo neste primeiro aniversário em anos que viro sem namorada? É uma pergunta sincera: haverá algum aspecto egoísta no fazer aniversário que poderei agora explorar? Por exemplo: poderei simplesmente ignorar o decoro e a vida social em família – que a data exige – e tomar então, sem cobranças a não ser por goles infinitos, um porre só meu e com uns poucos amigos dispostos a beber um porre só meu? Haverá ainda algo meu a ser descoberto por mim – um novo prazer? Ou, com mais chances: haverá algo meu a ser redescoberto por mim – um renovado prazer? Haverá algum valor meu outrora fundamental de que me deixei perder encantado ou levado pelos gostos alheios – mas sem que haja culpados, por favor, apenas maré? Haverá?
(Dar-me-ei de aniversário os quatro volumes do Borges que ainda me faltam e assim terei completa - em castelhano - a coleção borgiana, que julgo ser eu, qual seja: ter-me-ei completo enfim).
Não faz muito uma leitora me cobrou a esperança – a minha esperança – e eu, com efeito, escrevi dois textos a propósito, duas peças áridas como áridas tinham de ser. Talvez não fosse o momento e a coisa de fato me saiu muito dura – pois que duro estava eu. Seco. Fui honesto. Mas talvez não fosse o momento. Ocorre-me que só se pode, ou melhor, que só se deve falar de esperança quando esperança houver – é no mínimo generoso. Ocorre-me também de súbito algumas pistas do que me seja esperança e é agradável. É isso. A minha esperança é carnavalesca – é isso. A minha esperança é este solar mês de fevereiro e quiçá se espalhe um pouco mais, com sorte até março - até o sábado das campeãs. Será? A minha esperança é verde e branca e é já ansiedade também. É imaginar poder brincar o carnaval como o moleque que sou e que sei que sou.
“Avante imperianos,
A luz de Deus iluminou a Serrinha.
Viemos cantar, sambar,
Mostrar, provar a nossa tradição.
Pouca coisa não vai nos jogar no chão”.
Nos olhos da claridade
Até cego tem poder,
Pior cego é aquele
Que enxerga e não quer ver”.
“Fiz meu pedestal,
Ilustrei o Carnaval,
Etecétera e tal.
Eu vou enxugar com a sua ingratidão
Meus pés que vão suar de poeira.
Toda criação que eu criei foi pra brincar,
Se não lembrar é brincadeira,
Do prato, reco-reco, o agogô,
Que até hoje levantam o seu astral.
O primeiro destaque do samba surgiu
Em minha pauta musical.
Com miçangas e paetês bordei meu nome
Nos braços do mais belo Carnaval”.
“Lá do céu o “Viga-Mestre” nos pediu
Em sua filosofia
Pro Império não parar de entoar
Seu canto de euforia.
Lembrar as glórias da Corte Imperial,
Quatro anos de vitórias sem igual.
Atravessei fronteiras,
De emoção vi turista chorar.
Meus fãs vão chorar saudades
Em não me ver no meu grupo desfilar”.
“Sou Império, sou patente,
Só demente é que não vê.
Do samba sou expoente,
Abra meu livro, pois tu sabes ler”.
(”Fala Serrinha - a voz do morro sou eu mesmo, sim senhor”). [Beto Sem-Braço, Jangada e Maurição - 1992] .


Terca-Feira, 7 de Fevereiro de 2006, às 21:21
ooi gostei muito da sua cronica .fas sobre um dia importante na minha vida ,seria bem legal ! xau