por C.A. - Terca-Feira, 17 de Janeiro de 2006, às 20:04
É muito significativo da mentalidade brasileira que o estado influencie sempre – que condicione decisivamente – o artista, a produção artística, e não o contrário. O que seria natural, a primazia do intelectual sobre o burocrata, é aqui historicamente invertida e a conseqüência mais evidente, considerada a expressão artística cem por cento dependente do mecenato público, é a insignificância do cinema nacional.
Ainda, talvez, se a dominação do estado sobre o produtor cultural se desse no terreiro das idéias, se fosse estabelecida pela superioridade criativa do burocrata a serviço do estado, tudo bem, talvez até se pudesse justificar a ordem inversa e excepcional das influências, mas não – não: o poder do estado sobre a produção cultural é crescente e é só econômico, ainda que se valha do comodismo incondicional da tal classe artística do Brasil, de beiços largos para quaisquer gotas de faz-me-rir público.
Já escrevi centenas de vezes: é a sociedade que paga – em médio e longo prazo – o preço caríssimo de não possuir anteparos intelectuais independentes e é ela também que reflete n´alma a velhacaria do vale tudo por dinheiro. Comercialmente: não pode funcionar por muito tempo um sistema irresponsável em que o sucesso de bilheteria – ou o mais habitual fracasso – pouco importe para que o produtor cultural continue a receber verbas públicas milionárias. Na mais pobre das cobranças, se feito com dinheiro do estado, o produto tem de se pagar. Do ponto de vista essencialmente artístico, num contexto de disputas vis por cascalho estatal, em que o pretendido artista é antes de tudo competente lobista ou inventivo puxa-saco, é raro – eu afirmaria impossível – que qualquer esforço resulte em obra de arte. A anomalia artística brasileira seria risível não fosse crescida no pântano em que se afundam incontáveis recursos públicos: temos muitos – milhares – de artistas, quase todos ricos ou em vias de enriquecer, mas raríssimas obras de arte.
O cinema brasileiro é a mais longeva e visível marca da impossibilidade de um modelo, este do estado como grande provedor, como suporte absoluto, e eis que se chega a um momento decisivo e mais que aguardado, a falência do Ministério da Cultura, a bancarrota do gerente, decidido de repente a fazer uma “discrimação positiva”, nas palavras do Sr. Ministro Gilberto Gil Moreira, “estabelecendo um conflito distributivo que visa atender a periferia”, mas incapaz de equilibrar o conseqüente e previsível embate entre produtores culturais da antiga, da classe dominante – na linha nobre de Luis Carlos Barreto, Cacá Diegues, Paulo Thiago, Zelito Viana, Paula Lavigne etc. – e os produtores em ascensão, sobretudo os do Norte e Nordeste, os marginais ou ex-marginais, estes também aos poucos beneficiados por recursos públicos, o que significa bolo repartido e, portanto, gritaria deslavada dos que desde sempre tiveram tudo e agora ficaram apenas com quase tudo. Ou terá outra razão a recente briguinha do camarada Ferreira Gullar, secundado por Caetano Veloso, com um obscuro funcionário do MinC?
Enfim: o ministério propõe a repartição do equívoco; a democratização do comodismo; a descentralização da dependência. É muito interessante e pode vir a ser o grande legado da gestão do Sr. Gilberto Gil Moreira frente ao MinC: o fim tropicalista, canibal, antropofágico do Ministério da Cultura, destruído pela ganância – e pela estupidez – dos que nas tetas públicas sempre mamaram e que, gorduchos, vão mesmo é explodir.


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