por C.A. - Quarta-Feira, 4 de Janeiro de 2006, às 19:15
Agora vem o senhor Arnaldo Jabor – o intelectual possível no Brasil analfabeto – atacar de maneira geral e dissimulada a condição de fato mais que precária das estradas do país, tragando grosseiramente no mesmo charuto da irresponsabilidade pública a acintosa falta de manutenção das rodovias nos últimos trinta anos, inclusive no período de seu queridinho FHC, e a construção das mesmas. É mais que grosseiro, aliás. É desonesto.
Em outras palavras: não se pode culpar pela situação atual das estradas abandonadas aqueles que as construíram, lá já se vão três décadas. A inteligência, ainda que razoável, há de considerar impossível a resistência ad infinitum, por melhor que seja, de qualquer material de construção e, neste caso específico, de qualquer qualidade de asfalto. Mas não importa.
Deve-se falar mal do regime militar, hábito deveras consolidado, e é justo que se repudie toda sorte de violência – e quanto mais se interrompidos também os meios para denunciá-la. É preciso entretanto saber que foi lá, ao longo dos governos militares, que se investiu pela última vez em infra-estrutura neste país e que, sobretudo no que se refere à construção de estradas conjugada à manutenção freqüente, foi no período entre 1967 e 74 que se investiu em rodovias no Brasil também pela última vez, quando se traçou e executou mais de oitenta por cento da malha viária hoje agonizante neste país descarado em que cineastas fracassados acabam comentaristas de televisão especializados em golfar mentiras sob a forma afetada de um texto indignado e todo cheio de gestos palavrosos.
No período militar, ao contrário do que brada a propaganda à gauche, nem tudo foi Transamazônica – esta estrada tão atacada, tão odiada, que no entanto virá ainda a se justificar, lá onde hoje por exemplo se produz cacau como em nenhuma outra região brasileira. (Mas isso não importa). A propósito, está no ar um programa televisivo sobre o presidente Juscelino Kubitschek. Foi durante o governo JK que se abriu a estrada Belém-Brasília – e ela foi aberta com piso de terra. Foi tida como obra faraônica, absurda, inaceitável – Juscelino evidentemente tratado como um corrupto contumaz… O leitor talvez não saiba, mas é assim que se faz estradas num país continental e desigual como o Brasil: abre-se a estrada com piso de terra e, à medida em que seus arredores vão sendo ocupados, justifica-se o passo seguinte e então vai se dando a pavimentação, com calma – com planejamento. A Belém-Brasília foi riscada em terra e asfaltada anos depois, pelo regime militar – mas isso não se verá na série televisiva e estou certo de que já nascerá pavimentada a estrada nas telas globais. (É o que importa). Para os raivosos vermelhos, é inaceitável que um governo militar possa ter dado continuidade natural a uma empreitada iniciada por um presidente civil e por demais ligada a ele – e um presidente então popularíssimo. É melhor omitir e, com o tempo, fazer sumir a verdade – os fatos. Para os raivosos vermelhos, a lógica é aplicar por geral a prática, comum aliás no Estado do Rio, de que buraco aberto por um governante será imediatamente tapado pelo seguinte.
(Só para especular: não teria sido, pela mesma lógica da descontinuidade política, abandonada a Transamazônica pelos governos civis que se seguiram ao regime militar)? (Não importa). (A Transamazônica, já hoje com grandes trechos pavimentados, segue seu caminho de ocupação humana e terá de ser em breve, a despeito da mesquinharia ideológica, valorizada pelo poder público). (A conferir). (E a me cobrar).
Dei-me outro dia com um livro bastante cínico a comemorar os 25 anos da Ponte Rio-Niterói. Havia algumas fotos bonitas e nenhuma referência a quem sob as vigas dela morou para enfim vê-la de pé. Nenhuma referência ao incontornável de que tamanha obra de engenharia fora concebida e executada pelos governos militares. (Um imenso vazio, como se a ponte tivesse crescido por intervenção do espírito santo). Deparei-me todavia com textos de Zuenir Ventura a exaltar a beleza e até mesmo a utilidade dela. Canalha! Canalha! Canalha! Zuenir Ventura foi um dos infinitos jornalistas que infernizaram lá atrás a construção da ponte com acusações de que a obra monumental jamais se justificaria – jamais se pagaria. (Mas se pagou, canalha – e se pagou bem antes do prazo estipulado, canalha). A lógica dominante é esta mesmo: apagam-se os nomes dos reacionários malditos que trabalharam e realizaram de fato e apagam-se também as palavras sem caráter dos esquerdistas que os difamaram e caluniaram e injuriaram, de modo até que um tipo vagabundo possa por dinheiro exaltar sem sobressaltos morais uma construção a que se opôs violentamente e por meio de argumentos que o tempo expôs no mínimo inconsistentes. Para os raivosos vermelhos, a canalhice pode tudo e que se dane o resto. Para os raivosos vermelhos, é normalíssimo que um engodo como Zuenir Ventura reste como o que de melhor há na imprensa deste país analfabeto.
Já escrevi aqui: o presidente-parati Lula quer fazer crescer novamente a indústria naval brasileira; quer fazer com que a marinha mercante nacional volte a ser uma bandeira respeitada, capaz de dividir os fretes com as potências marítimas internacionais. Ele quer e o anuncia por meio de um discurso capenga, sem caráter – um discurso incompleto. Que se dane. Ele pode tudo e não pode, de jeito nenhum, dizer quando foi competitiva a marinha mercante do Brasil. Eu posso e eu digo: foi competitiva durante o regime militar, quando se deu o triunfo brasileiro na tão importante quanto apagada “batalha dos fretes” – triunfo que aliás muito se assemelha às recentes conquistas nacionais no campo da saúde, com a quebra da patente de medicamentos fundamentais. Eu digo também o seguinte: a frota naval com que circula pelos portos do mundo a bandeira verde-e-amarela foi toda – toda – construída naquela época. Mas nada disso importa.
O que importa: eu sou um idiota reacionário vendido ao capital yankee, inventei tudo que supra-escrevi pois que sou uma mente literária e sobretudo não tenho esperança alguma. No mais: o leitor aguarde o meu livro.


Quarta-Feira, 4 de Janeiro de 2006, às 10:31
Devo estar ficando velho mesmo, já que concordo com o texto integralmente.
Quarta-Feira, 4 de Janeiro de 2006, às 10:35
Eu é que estou ficando velho, grande Simas, já que considero este texto radical…