por C.A. - Segunda-Feira, 2 de Janeiro de 2006, às 19:13
Chamar-me-ão de conservador, quiçá reacionário, e de fato o sou – que mal há? Gritar-me-ão ultrapassado, vencido, e quanto-quanto mais nestes tempos em que são todos progressistas, todos liberais, nestes tempos em que nunca foi tão fácil ser vanguarda já que vai confundida a mente aberta, tida qual moda de verão, que se pode comprar nas boutiques caríssimas e vestir como se figurino fosse alma, na lógica velhaca do visual por conteúdo suficiente, por mensagem de que é superior o espírito quando nem mesmo espírito há, a cabeça aberta que se crê na saia sofisticada, no cabelo estiloso, no baseado queimado em público – e mais para quê?
Para que mais se estão todos cansados e se não me refiro a um cansaço físico? Para que consistência se pouco importa o pensamento e se conversar – conquistar! – é já coisa da antiga e o agrado de um carinho caminha veloz para se tornar o sem tato dos rapazes que puxam os cabelos das moças anestesiadas e idiotamente sorridentes? (Para que a literatura se há o cinema)? Para que as idéias originais e a reflexão se fica tudo mui evidente, exibido, exposto, o som altíssimo e as luzes todas apagadas, o universo artificial e de repente seguro onde não se pode escutar vozes humanas e tampouco distinguir rostos, corpos, gostos – para quê?
(Observação pontual a respeito de meu réveillon numa gigantesca festa em São Conrado: acompanho de longe uma menina a vagar qual um boneco de um lado ao outro da pista e ela beija vários homens e beija todos igual, sem marcas de personalidade, sem sinalizar preferências, sem esboçar identidade, e a expressão é incrivelmente fixa, inanimada, perdida, largada, de beijo em beijo, de língua em língua, e é bonita a menina, ou poderia ser, e a face travada num meio sorriso nada mais é que o atual rosto do estupor). (Qual será o próximo)? (Qual será o derradeiro)?
Existe hoje uma sorte de fome e as gentes se comem e, com efeito, é banal trepar – todos trepam com todos e esse canibalismo, dizem-me orgulhosos os futuristas, é a liberdade, é o porvir. (Pode haver conforto mais hediondo)? (Devo ou não beber)? Existe, sim, esta fome e é uma gula de fácil resolução, de trato imediato, quase sem digestão, e nada me pode tomar agora por mais ordinário, por mais vulgar – mais insosso. Trepa-se e sem nomes, sem memórias, sem curiosidades, como se governasse de súbito um comando automático a garantir aquele gozo burocrático mas certo, médio mas presente, o prazer senso-comum a enterrar a descoberta dos corpos, a dilapidar o inesperado da conquista – enfim, a glória do mesquinho sobre o tempo humano de se conhecer. (Bebo e a cada dia mais). (Não estou só).
Todos se trepam, mas há curiosamente uma reserva, um receio, um temor geral, e eles não conseguem esconder e talvez nem se saibam apavorados, mas há o medo de se envolver, de assumir o gosto, e é para tão pouco que se apagam as luzes e o som é violento e preenche tudo, sempre de acordo com a necessidade de se alienar na batida única, nos acordes torpes, para que eles não se possam ver nem escutar, para que não se permitam envolver e assim, sem genuína atração, restem atração aos olhos outros, qual bestas cegas na arena, pois que se comem sem desejo e se comem para se mostrar e é assim que se aprazem, a trepar em público, atores do espetáculo da miséria, com afetação máxima de posições sexuais circenses e gestos teatrais, sem intimidade, sem afeto, sem o requinte do toque privado, dos corpos que se querem e se encontram e que nada tem a dizer que não seja pessoal, ainda que não necessariamente dito em voz baixa.


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