por C.A. - Quarta-Feira, 28 de Dezembro de 2005, às 19:11
Propus-me a escrever sobre a esperança e, de um só golpe, até o fim irei – é o compromisso meu. Nada no entanto posso tomar por mais improvável agora – nada: escrever hoje sobre a esperança e tudo sem que tivesse resultado o esforço intelectual dos dias anteriores, por meio do qual pretendia encontrar algo de valoroso e honesto a dizer, e me ocorre de súbito que para tanto, para achar uma idéia original e interessante a respeito da esperança, para achar substância ou futuro onde o terreno é indistintamente descrente, teria eu de me deixar e assim descobrir antes um outro ser e a partir dele, deste autor que não serei eu, lançar-me numa investida d´outra voz, emprestar-me para essa voz que não conheço e para ela me soltar a trabalhar sem que por fim a posse da peça escrita seja minha, pois que me desapeguei, deixei-me, pois que me larguei ao uso de um esperançoso todavia sem nome e sem sequer forma, permiti-me a algo quiçá próximo da incorporação macumbeira, de repente então um candomblé literário capaz de me pôr na pena a fé perdida e sobremaneira nos outros desconfiada. Não. Não! Tamanho movimento demandaria muito trabalho e não sou um trabalhador. A esperança que emerge deste primeiro parágrafo é que posso jogá-lo no lixo quando bem quiser. Por ora: a esperança é objetiva; a esperança é a possibilidade – e é bom.
A tentar fazer correr naturalmente estas linhas obrigadas, registro o que me vem de imediato quando penso em esperança – e me perdoem se estilizo o já aborrecido clichê freudiano: uma massa francamente vulgar e desforme; um continente mastigado e ao mesmo tempo intocável, uma carga de conteúdo alargado como as paredes vaginais das putas curtidas, em que se destaca um vago de sotaque cristão – o clitóris portanto raspado; alguns cegos contentes me cruzam e me cruza também um sentimento sem caráter pelo uso vendido dos tempos e uns gritos barbudos de apropriação publicitária, sim, de repente o rosto do duda mendonça e a vontade compulsória de vomitar, um corte de foice e martelo e a massa prostituta já tem dono e talvez tenha sempre tido, e a eles vermelhos senhores da terra coube batê-la eternamente para que se tornasse a cada dia mais inominável, mais inflada, mais vazia, a massa, a esperança, convertendo-a por fim em incontornável apanágio da utopia vil, em recurso ilusório de um futuro que não virá e graças a deus.
Eles gargalham que a esperança venceu o medo e eu me escondo entre livros reacionários, sem medo, a desejar qualquer sorte de pavor que me motive a lhes dar uns tapas nas caras-cohibas. O generoso dessa esperança é que posso aqui escrever livremente que ela não existe, posso gritar que ela se matou – que a esperança assassinou a esperança! (Agora, que se virem os filósofos para criar um substituto, uma alça como aquelas de couro dos ônibus de antigamente, onde a povanca se segurava dos trancos e todos muito sorridentes – que os filósofos projetem logo um step para os miseráveis d´alma). (Deus está esperando, ansioso).
A esperança ainda é a possibilidade e é também a fé difusa em um estalo que embale alguma sorte de mobilização contra o triunfo da ignorância, contra a exploração da ignorância e contra o horror ao conhecimento - nada objetivo. (A esperança é falsa e quanto mais quando esperança coletiva – estou seguro disso). (A esperança talvez só esboce consistência se individual – estou certo).
A minha mais profunda esperança é o egoísmo de, a despeito da idiotia festiva geral, poder me trancar sob a luz temperada e ler aqueles ensaios de Orwell em que são desmascarados embustes como Gandhi. A minha esperança é poder então rir sozinho e não ser escutado.


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