por C.A. - Segunda-Feira, 19 de Dezembro de 2005, às 19:10
Uma perspectiva generosa para o Natal que se avizinha: haverá bebidas alcóolicas e primas distantes sem sutiã sob as blusas finas; haverá então goles suaves para curar o suor e afinar a vista dos seios durinhos; haverá misturas de líquidos infames e vontades socialmente reprováveis; haverá indigestões de vinho doce e risos sem doçura – uma perspectiva generosa para o Natal, este inapelável acúmulo de perdas, este museu de acervo fracassado, de ossos mal-calcificados, de carne vencida, podre, e a podridão sem caráter, sem fibra, sem memória, sem, sem, sem, sem, sem, sem, sem, sem. O Natal é dos mortos.
De resto, o resto: a miséria do verão incondicional e o frio de ser um solitário escritor romântico assomado de grosseiros que puxam os cabelos das moças e cospem no chão, e elas tão bonitas de repente gostam, gozam, e de fato gostam, gozam, e talvez estejam todos certos, talvez seja o futuro, os povos do século vinteum, os vanguardas, sim, os poetas sem poesia, e quem sabe sejam os cabelos puxados das moças e os catarros ao chão já os versos de uma nova forma de soneto, os quartetos e tercetos, quem sabe. Quem sabe não haja também espaço para a saudade? Saudade muda; saudade sem forma de expressão. Saudade vaga dos pagodes que não vi; dos carnavais que não venci. Saudade ardida dos amigos que são já natais passados. Saudade terna dos livros que viraram lugares e gentes. Saudade absoluta da boca que não bebe café.
Os anjinhos chegaram e me perguntam muito superiores se não sei me emocionar, os analfabetos anjinhos – os clichês anjinhos. Se não tenho sentimentos – eles perguntam, os cegos anjinhos, os corretos anjinhos, os tapados. E eu respondo como posso e com um esforço de graça artificial neste inútil terceiro parágrafo, cantando sem mais o velho samba de Irajá segundo o qual quem é boêmio não chora, e eles se calam e sequer fazem a pergunta evidente – essencial, os bestializados anjinhos: se não seriam essas linhas todas uma sorte intelectual de lágrima? E os desdobramentos da questão: se não haveria dor mais absurdamente franca que esta que imagino literária; se não existiria tristeza mais equivocada que esta que se pretende valer da literatura?
A minha tristeza eu divido – eu a reparto: compartilho. Eu abraço os anjinhos. O espírito da festa dos mortos. Feliz Natal!


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