por C.A. - Quarta-Feira, 14 de Dezembro de 2005, às 19:05
E eis que de regresso me tem a boemia. Sem alternativas e sem lágrimas também – o chão meu. Sinto-me à vontade. É o que agora posso escrever a propósito: sinto-me à vontade.
Não estou feliz. Não seria exato. Subsiste mesmo uma tristeza que quero fazer passar por difusa. Mas que de vaga nada possui. Sei-lhe perfeitamente o nome. Sei de muitas coisas. Sei que estou deliciosamente só – estupidamente só. Sei que exagero e sei que me sinto um tipo formidável, poético, um desregrado do século XIX - um maldito. (E quiçá morra de tuberculose ao som de um lundu de salão).
Ontem: saí e bebi. Anteontem também. Bebi no domingo e igualmente no sábado. Na sexta, bebi. Abri uma garrafa de uísque e era muito antiga a garrafa, de modo que a tampa podre se estraçalhou em minha mão e migalhas suas sobre o gelo no copo caíram, e depois ao corpo do líquido se misturaram, e tudo sorvi calmamente – estúpido e deliciosamente só. Sei que posso nesse ritmo adiar e me adiar – assim mesmo, sem complementos.
Sob o clarão da lua: a vida que se finge resolver aos goles do que na mesa couber – e é tudo muito agradável. Sob o clarão da lua: a confusão festiva e aos poucos turva de rostos e gestos menos íntimos que o desejado a reproduzir o estado revolto – perplexo – da mente. (E talvez, honestamente, nada tenha a ver com o álcool). É evidente: há um esforço artificial coletivo para que a felicidade convença ao menos de público – e é tudo muito agradável.
(O clichê cá de dentro - interno: ressinto-me de Paris e não só da cidade). (Ocorreu-me hoje mais cedo quão estranho me poderá ser um dia reencontrar Paris e a porta do château cruzar). (Quão vulgar é esta vontade de me passear pelas mesmas ruas de sempre e nas mesmas livrarias entrar, e nos mesmos restaurantes)? (Quão obsceno é este impulso por reviver o despir-se das roupas pesadas tão logo aberta a porta de casa – e então o toque inominável daquele calor pessoal, com cheiro e memória)?
Penso com afeto no carnaval e penso que é bom que ele se aproxime – o carnaval. Penso que haverá antes uma passagem de ano miserável e me apraz projetar que me possa divertir em alguma festa sem caráter, onde piranhas dançarão ruídos torpes, e talvez lhes crave os dedos nas bundas flácidas, nas tetas desalmadas, e sorria, e sorria idiota, gargalhe idiota, ou talvez simplesmente assista a tudo sem reação, sem juízo, sem som, sem que as meninas cristãs me sentem no colo e me falem no ouvido indecências extraordinárias, sem que a desgraça humana me pareça justíssima, sem que a minha falência pareça literária – é possível; é tudo possível.


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