por C.A. - Segunda-Feira, 26 de Setembro de 2005, às 18:51
Cá estou a trabalho na “Primavera dos Livros” – que se passa no Jockey Club: informação relevante pois que já um cavalo folheia o rico volume ilustrado com esculturas devocionais do Aleijadinho; e é notável que mesmo um quadrúpede manuseie tão estupidamente um livro. (Com que sorte de carinho tratará então o corpo da fêmea – o corpo da parceira égua)?
Venho de ler umas páginas de Borges e talvez, como eu, ele desconfiasse de cavalos sem intimidade com o livro. (A bem da verdade, convém assumir o gosto pelo fantástico a partir do qual se organiza a minha alienação). (Em outros termos: o único assunto de fato decisivo: a literatura).
No estande à minha frente, atrás de volumes de Sêneca, um homem longamente barbudo, de modo que nada mais em seu rosto há que cabelos, penteia delicado as pétalas azuis de uma rosa de papel crepom. (Não é poético mas tampouco assustador).
Não é que faça calor – não: mas me cruzou recém uma senhora de cachecol e, se suo, se suo muito, a culpa é dela, da senhora tarada que se enrola de cachecol e de quem invejo o desfilar prazeroso da alma temperada.
(No estande à minha esquerda: toda a beleza).
Agora me vem um potrinho a mexer nos livros. Agrado-me do interesse e ainda que o cavalinho não demonstre a mínima noção do que seja um livro e é assim que não consegue abri-lo: não consegue porque não sabe que um livro se abre e logo-logo vêm os pais e é tudo muito feio e traumático, “sai daí, menino, não mexe nisso, não mexe no livro, menino, isso não é coisa de criança”. (De repente, aos meus olhos leitores, plantada a semente do temor ao livro – que germinará ódio).
Encho-me de café e sempre na lógica do café sem açúcar – para que nada mais chegue a amargo. Vou então ao banheiro e lá está um rapaz a comer um sanduíche, de costas para o mictório e de fronte ao espelho. (Penso se pode haver local menos apropriado para um lanche)? (Penso se aquilo é literário).(Estou doente de literatura)?
Chove e com força. Tenho fome e não me apeteço de pizzas requentadas. Fiz fé de dez reais num cavalo e perdi a aposta – a besta se classificou em terceiro. O Flamengo também perdeu e o meu humor vai duramente goleado. Enfim: quero dormir; comprei alguns volumes e a minha preocupação, agora que a festa acabou, é bolar uma engenharia capaz de proteger os livros no trajeto até o carro. Não é muito mas valerá como triunfo. Queria um beijo.


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