por C.A. - Quinta-Feira, 1 de Setembro de 2005, às 18:42
Tenho horror conceitual a coletâneas – quaisquer coletâneas –, mas venho de adquirir uma caixa-seleta com a obra de Bezerra da Silva, de quem sempre fiz o pior dos juízos e a quem, generoso que sou, decidi dar uma nova chance, uma espécie de revisão post mortem. Entretanto, e não obstante a melhor das intenções, reafirmo: Bezerra da Silva está condenado ao progressivo esquecimento.
Sim, há razoáveis momentos na massa falida do repertório bezerradasilviano: a coisa do malandro em oposição ao otário (o mané, gente boa), de tão-tão irrelevante, chega a agradar o riso. Igualmente: a gozação-clichê de cornos, putas e sogras – a escória da temática intelectual entre os sem imaginação, inclusive escritores. As gírias, a originalidade dos termos da malandragem, ao lembrar de raspão por exemplo o monumental Padeirinho, despertam a atenção – e pouco importa que freqüentemente pelo mau-gosto, o que explica o raspão: Padeirinho, o bamba de Mangueira, era elegante. Enfim, tudo passa e até diverte se houver limite: uma, duas, três músicas da porção medíocre de Bezerra da Silva no máximo e no bolo, entre sambas de terreiro da Portela, de partidos da Serrinha e do Salgueiro, de Martinho, de João Nogueira, Pagodinho, Jovelina e a turma do Cacique. E essa tolerância é para o que Bezerra tem de melhor: a mediocridade, o senso-comum. O pior – a demagogia favelada, a apologia ao consumo de drogas, o conteúdo pré-funk etc. – é insuportável.
O papo do bem contra o mal, sendo o bem incondicional a favela e os favelados, não dá liga e é de fazer corar a mais idiota das demências brizolistas. O mal, naturalmente, é todo o resto e segue na linha tosca, bastante em voga, de satanizar as tais elites – como se não houvesse gente de bem com grana e como se só se pudesse ganhar dinheiro, este pecado, na lógica da espoliação dos pobres trabalhadores. É uma posição francamente covarde a do cantor – o Foca da música popular: porta-voz dos marginalizados e onipotente da consciência social. É perigosa também a postura foquista na medida que se vale da miséria alheia, miséria inclusive de acesso à capacidade crítica, para monopolizar o protesto e com ele lucrar e fazer carreira. Existe no Brasil a tradição do “pai dos pobres” e, do ponto de vista estritamente musical, engodo maior não pode haver.
Bezerra da Silva se proclama o embaixador dos favelados. (É constrangedor). Diz-se igualmente um cronista – mas não chega sequer a sambas meia boca. (Está na moda se dizer cronista e lançar mão de Ctrl C – Ctrl V). Outro perigo: Bezerra da Silva confunde a observação crítica do cotidiano dos morros, do movimento das drogas, com a descarada apologia ao estilo de vida dos bandidos, legitimando-os por desejáveis ao registrar em disco, como coisa bacana, a linguagem do tráfico e seus costumes de meteórica ascensão financeira, de tênis novo, importado, por pisante. Sem entrar no mérito batido da legalização de entorpecentes, a venda e o consumo de drogas ainda é crime no Brasil e os policiais, que na média trabalham de acordo com a lei, só são manés pelo salário miúdo que ganham. Portanto: finco-me contra a mera sugestão de que o grave equívoco de abordagem supracitado se deva à ingenuidade analfabeta – não. Incorporar como sua a ingenuidade dos outros é o principal campo de escape para os que se dão bem no eterno chupa-chupa da ignorância alheia.
Algumas canções do repertório de Bezerra da Silva são incompreensíveis e me dão terreno para pensar o que quiser – problema dele; responsabilidade dele. (Clareza é qualidade e quanto mais quando se lida com questões no mínimo controversas). De certo, o recurso a termos inacessíveis tem uma função: chocar, causar estranhamento, incomodar a quem favelado não é – e isso na melhor das leituras. De minha parte, já menos generoso, sugiro que seja linguagem cifrada para agradar bandido em Bangu I – e aí? (Problema dele; responsabilidade dele). No mais: talvez a alma penada de Bezerra da Silva, a vir puxar meu pé, possa explicar a gravação de sambas que nada mais contêm que um desfile de nomes de morros, sem sequer mencionar peculiaridades, características dos locais e de suas populações, como se tão-somente quisesse agradar aos excluídos, eternizando a alcunha de suas comunidades, tal qual fossem eles imbecis na cata de migalhas de consideração e ele, Bezerra da Silva, um político em véspera de eleição, o mesmo modelo que execra em um punhado de canções, o anti-cronista na busca insensível de votos e mais votos através de promessas que, honestamente, não valem os 44 reais que paguei por este conjunto pedetista de músicas.
Escrevi lá em cima que Bezerra da Silva está condenado ao progressivo esquecimento e então acrescento: tanto melhor para a cultura do samba.


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