por C.A. - Quarta-Feira, 17 de Augosto de 2005, às 18:57
Peguei-me a calcular, pela necessidade bovina de escrever textos legíveis sobre assuntos leves, o que faz um homem, acima de vários outros, sujeitos sempre a altos e baixos, ter sucesso quase incondicional com as mulheres.
(Ocorre-me de imediato, para que o presente texto evite, embora adocicado de concessões, sequer a sugestão de passar por peça de auto-ajuda, que não se trata de conjunto de qualidades que se pode adquirir com concentração, treinamento ou fé de mover montanhas, sendo antes talento inato, a partir do qual, do berço quiçá, pode ou não desenvolver-se – mas é talento inato). (Ah, e não estou bêbado; não escrevo bêbado desde Paris). (Quero tão somente esboçar os traços, ainda que rasos comme d’habitude, do sujeito que faz sucesso quase incondicional com as fêmeas). (Raso é o autor – esclareço).
Tomo-me, por preguiça, como referência. Sou um tipo comum e não me enquadro entre os que fazem sucesso com elas, ainda que convenha registrar: são tipos comuns muitos dos que fazem sucesso entre as mulheres. (E de acordo com a regra internacional das generalizações intelectuais, por tipo comum entenda o leitor: aquele que não é e que não poderia ser modelo; modelo de verdade aliás, e não essa ralé chulepenta que faz book e anúncio da Taco, sei lá). (Homem de beleza normal, entre feio e aceitável, que quer se fazer modelo precisa compreender: o esforço em nada resultará que não no exagero da viadagem com wet-look). (Homem modelete não serve nem para recepcionista de evento country, quem sabe a festa do peão em Barretos).
De modo geral e ainda assim limitador: nada tenho que possa interessar uma mulher ignorante – e convém mais uma vez registrar: a ignorância não é exclusividade feminina. Sou um cara nervoso, ansioso, intelectual cometido, um criminoso na terra em transe portanto, normalmente com olheiras e alguns bocados de livros sob os braços sem músculos, e essas marcas são fatais. (Em outros termos: complico as coisas e faço complexa, subjetiva, a mais simples das atividades a que me proponho: escrever um livro). (Tenho também o hábito destrutivo de contrair o maxilar quando sob pressão, o que ocorre sempre que não estou sozinho, e desse jeito me faço parir uma extraordinária dor de cabeça por dia). (Talvez até gostasse de praia e areia não fosse a multidão). (Se me distraio, franzo a testa e, assim, ganho, muito mais que o aspecto cansado do velho que por dentro cá vai, a estampa de quem tem problemas e não importa quais: é furada). (Sei e estou bem: fico com o meu público, que estimo em cerca de 0,3% da população mundial; fico com a minha musa, que transborda quaisquer estimativas).
O tipo que faz sucesso com as mulheres não sua, não tem barriga e é saradinho, mas sem muito volume, não tem cabelo pixaim, não carrega sobrenome da gentama, não fala de assuntos desagradáveis, os quais felizmente desconhece, como desconhece o que sejam contratempos e também, felizmente, idéias, não tem gênero musical preferido, ressalvando de tudo ouvir, é um eclético, mas curte especialmente um bom axé de carnaval em Salvador ou no cais do porto carioca por que, afinal, para ele, carnaval é o ano todo. Festeiro de marquetingue maior, a quem supõe-se com dinheiro, não dá vexames para além dos limites do engraçado, do charmoso, ou seja, não bebe ao desgosto de falar alto, sabendo embalar um falso porre coletivo, três chopes no máximo, e agrada assim por farrista compreensivo e principalmente não exagerado, o que inspira confiança: ele não vira a mesa e fez crisma.
Ao contrário da referência negativa em que me constituí, eu, incapaz ao menos de mostrar interesse por tudo-tudo quanto me dizem, aliás interessado de fato em pouquíssimas coisas, o tipo que faz sucesso com as mulheres, por seu turno, ouve tudo com atenção e tudo o parece motivar como se nada mais no mundo houvesse e como se a moça fosse o papo fascinante finalmente descoberto, e os olhos dele, com uns sinais de carência que só ela pode perceber e acolher, fixam-se nos dela e ali está todo o universo que para ele importa, emitindo hipnotizado vez por outra sons de concordância, intercalados com frases de filtro que nada mais fazem a não ser mostrar prazer e estimular que ela prossiga e que ela poderia continuar, ele ouviria encantado, para o resto da vida, se bem que gostasse muito de beijá-la, mas não tem pressa, não conhece a impaciência nem se curva, por aparência, ao imperativo do sexo – é um gênio e ignora Flaubert.


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