por C.A. - Sexta-Feira, 24 de Junho de 2005, às 18:44
Ainda sob a surpreendente marola que se ergueu no mar a partir de meu escrito último (o epicentro do tsunami intelectual), sugiro mui delicadamente aos incautos leitores que não se esforcem para conhecer o samba. (Isso, no sentido estrito de conhecimento, é função de gentes bestas como eu, 0,3% da população mundial segundo o velho Francis, gentes que por exemplo pedem aos outros, quase imploram aliás, que prestem atenção na letra da canção, por favor, é linda, escute, por favor, é linda – mas que rejeitam se tratar de poesia). (Uma modalidade de esquizofrenia – sans aucune doute, sir freud). (Mas que não invalida o veredicto: não é poesia mesmo). (É letra de música popular). (O que é muito mais importante – no Brasil). (A propósito de poesia brasileira no entanto: Cruz e Souza e Augusto dos Anjos). (Contemporâneo: Alexei Bueno). (Muito bons). (E só).
Mais valioso que conhecer o samba será ouvi-lo vez por outra – simplesmente e sem se apavonar em letras e demais cafonices. (Estou na fase lilás, à la Rob Jeff, qual seja, a de definir o cafona, mon dieu, sendo cafona). (Mas sou macho). A retomar então: acelerando o ritmo: sem se ater ao cafona: ouvir samba: pronto: samba naturalmente: retomado o fio. Ouvir samba enquanto se conversa e, condição sine qua non, enquanto se bebe. Ouvir enquanto se trepa – trilha sonora de fato revolucionária já que, de acordo com o senso comum para o coito, música de trepar tem de ser gringa ou gringa cantada em português. Manja?
Mais valioso sobretudo será, sem radicalizar, ouvir menos outras tantas coisas. O tal equilíbrio. (O tal equilíbrio que me hão de escarrar na gasta face: o tal que me falta nestas linhas incontinentes). (Porém: pouco se me dará, meu bem). (Em outras palavras: cago). Une fois plus a retomar: há um estudo muito sério, se não me engano da universidade de Três Lagoas, no Mato Grosso do Sul, segundo o qual o ruído tecno, enquanto talvez embale o fácil coração popalternativo, corrói o cérebro em escala geométrica – aquela, se me lembro, mais poderosa que a outra, a escala aritmética. Se eu entretanto errado estiver, por favor, bastará efetuar a troca e onde se lê agora escala geométrica se lerá escala aritmética. E assim também me situo entre os escritores pós-modernos, os de vanguarda, meu sonho, exigindo abertamente a participação do leitor, leitor-modelo selon monsieur Eco.
(Não comprei sequer um livro nos últimos quiçá três dias e, se minto, gostei). (É o que classifico mudança na rotina). (Se minto). (Na mesma linha: devo agora parar de combinar carne-seca desfiada e bem-bem crocante com tinto da Bourgogne). (Há o risco de faltar carne-seca). (Não faltará atenção: gracias, Mariana: tão-tão generosa para com o esboço do ilimitado, de arquitetura ao menos sentimental – o que tem lá seu valor). (Também: repare o leitor: escrevo já mais relaxado não obstante os nervos do café: o Pim monumental me disse que entre os mortais só ele me compreende: relaxei). (Se minto).
Enfim: não acredito em mantras: mas se insistem: algo vai dar certo.


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