por C.A. - Quarta-Feira, 22 de Junho de 2005, às 19:02
Houve um tempo, não faz muito, em que o samba, qualquer samba e mesmo aquele enfezado, de malandro, do morro, era tocado nas adocicadas bases bossa-novistas, cheio de nove horas mui comportadas, com baixo, piano e bateria, numa inversão de influências imposta naturalmente a partir dos estúdios das grandes gravadoras, onde já pontificava o engodo-embrião do que seria em breve o asqueroso executivo da tal indústria da música – a definição exata de onipotência.
Não por acaso era o tempo em que ia a Lapa oba-oba bem morta e enterrada, terra arrasada, terreno da bandidagem sem talento e sem navalha. Era o tempo em que de Ismael Silva ninguém se lembrava. Quem? Nem de Noel Rosa. Nem de Ataulfo Alves. Nem de Geraldo Pereira. Nem de Wilson Batista. (Who)? (Qui)? Era o tempo em que Cartola lavava carros na porta do Jornal do Brasil – Cartola, leitor! (Tempo aliás em que o JB tinha porta – tempos idos). Era o tempo enfim do samba elitizado, nada de faca no prato, nada de partido-alto. Maysa, sim. Muita técnica vocal. Johnny Alf – também. E, ah, Dick Farney. (Yes, baby)! (Oui, monsieur)! Era o tempo deles.
Foi Martinho da Vila o grande-grande reacionário, o estopim do renascimento, surgindo monumental na Vila, no morro dos Macacos, lá pelos fins da década de sessenta, a gravar discos de samba novamente batuqueiros, o som do couro arregaçado, a voz de quarta dose necessariamente sem aulas de canto, a fundamental divisão improvisada – e foi um tremendo susto. (God, quanto primitivismo)! (Quel horreur)!
Em seguida, já nos anos setenta, aprofundando a pegada, vieram os pagodes em fundos de quintal, cujo centro irradiador, o Cacique de Ramos, fez brotar, na virada para os oitenta, o gênio partideiro de Almir Guineto, a sofisticação musical de Jorge Aragão, a capacidade agregadora de Neoci, os versos de rima inesperada de Luís Carlos da Vila, e depois Arlindo Cruz, depois Jovelina, depois Pagodinho. Veio então o disco “Tendinha”, de Martinho, o “ Clube do samba”, de João Nogueira e o extra-classe “De pé no chão”, de Beth Carvalho, com “Vou festejar” e o pagode então nas ruas, inescapável, primeiro no Rio, après, no Brasil inteiro – o auge da percussão, do couro na mão, o som preenchido nos dedos do Ubirany sobre o repique, a marcação instigante do tantã do Sereno, o banjo quase tamborim do Guineto, o violão multiplicador do Aragão.
Foram eles, sim, os pagodeiros, oui, oui, que fizeram reaparecer a obra de Cartola. Foram eles que regravaram os compositores esquecidos do Salgueiro, do Império Serrano, da Portela – foram eles: Beth Carvalho, grupo Fundo de Quintal, Zeca Pagodinho etc. Foram eles que resgataram a inestimável Ivone Lara, parceira de Jorge Aragão em “Tendência”. Foram eles, sim: os que plantaram o trigo para rapaziada, hoje, comer o pão – o pain au chocolat da Lapa.
A Lapa: eis que chego à Lapa (que “também tem a sua igreja”): uma miríada de rodas de samba: a Lapa do samba mais uma vez elitizado, do cavaquinho nada rasgado, mas toujours comedido, do pandeiro tocado baixo, com elegância, quiçá com vergonha; a Lapa do repertório clássico anos quarenta, muito Wilson, Geraldo e Noel, muito Ismael Silva, muito Nelson Cavaquinho, muito Cartola, muita Ivone Lara e, cependant, curiosamente, um enorme desprezo, vendido no entanto como desinteresse, na verdade estupidez ou imbecilidade ou pop-burrice, pela turma dos pagodes em fundos de quintal – a turma que, não se engane, ao tocar, cantar e gravar os sambas dos compositores da antiga, agora tão-tão cultuados, fazendo-os enfim ouvidos une fois plus, reabriu as portas da própria Lapa tal qual se conhece hoje, o mel da vida jovem-alternativa-descolada da cidade – e cruz credo.


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