por C.A. - Quinta-Feira, 5 de Maio de 2005, às 18:48
Faz tempo que não escrevo sobre samba e me explico: por ser o que o Brasil tem de excepcional e ao me botar sempre-sempre comovido, prejudica o sério projeto a que me lancei d’alma, o de discutir a indigência intelectual do país, a fé crente no senso comum, o gosto pelo mais ou menos e a conseqüente perda do paladar pessoal, perda aliás imperceptível, terreno portanto fértil para a babazinha pop se espalhar e resultar no presente comodismo generalizado segundo o qual tudo vai muito bem, e que mais não é que a manjada estupidez clássica.
Em outras palavras: o samba me põe doce. É nele que encontro ainda esperança criativa para o país, o que será, ao menos para o meu propósito crítico, ruim, sobretudo por que, a despeito por exemplo de um Noel Rosa ou de um Nelson Cavaquinho, o samba nunca foi valorizado, o que é mais uma vez sintomático da falência mental que nos cega, como a grande contribuição cultural do Brasil, como a grande criação brasileira, infinitamente mais importante que a literatura de Jorge Amado e até do genial Machado de Assis, muito mais importante que a arte de Di Cavalcanti, de Djanira, de Portinari, e muito mais importante que a provinciana bossa-nova de Tom Jobim e João Gilberto, subproduto do qual aliás o samba é matriz, como é matriz do forçado tropicalismo – e não o contrário.
Trata-se esta de discussão fundamental e quanto mais se considerada a história social da música brasileira escrita até hoje, sendo o nunca assaz louvado José Ramos Tinhorão a enorme exceção, na qual a importância do samba é progressivamente reduzida ao ponto de estar já arraigado no senso comum a idéia de ser o sambista um acomodado incapaz de criticar, o que é falso e para tanto poderia relacionar aqui duzentas mil músicas, crônicas do cotidiano pobre nos pobres subúrbios do Rio de Janeiro. É a convicção falaciosa na ingenuidade do sambista que justifica o pulular do rap como novidade crítica vinda, de acordo com o politicamente correto, das camadas mais baixas da população, quando na verdade é ruído alienígena para encher bolso de gravadora multinacional.
Aos que dizem que discutir as raízes da música brasileira é bobagem e coisa de gente atrasada, a minha mais sincera banana vanguardista. A não ser pelo ridículo do provincianismo, concertos no Carnegie Hall não têm nenhuma relevância. Muito pelo contrário. Paulinho da Viola compôs um dia a canção “Sinal Fechado”, que julgo por sinal chatíssima. Para Caetano Veloso no entanto, está lá no livro dele, foi uma revelação, descobrir de repente que Paulinho podia ser sofisticado, podia ser um deles etc.
A lógica é essa mesmo: a de absorver tudo e misturar na geleia geral, de desprezar origens e tradições entretanto de maneira cool, sob o discurso moderno por exemplo de que a tudo se pode samplear, remixar etc., de que em última análise a tudo se pode simplificar.
Felizmente “Sinal Fechado” ficou lá atrás e Paulinho da Viola segue no samba, a única cultura relevante do Brasil.


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