por C.A. - Segunda-Feira, 11 de Abril de 2005, às 18:56
Não sei nem quando nem como mas o por quê me é bem-bem simples: as coisas fecham; há horários e as famílias carentes ou famintas esperam os seus para enfim jantar ou trepar etc. Então cá estou e é um possível paraíso. Talvez aliás convenha refletir sobre o como de cá estar muito embora não faz três linhas lá esteja que do como não sei. É verdade: não sei e tanto melhor para um conto de inspiração fantástica: a dúvida por recurso literário: estava com um volume do “Ficciones” de Borges na mão e me pus de início a folheá-lo e não é exato que o tenha em seguida lido mas nessa inexatidão que é imersão da mesma forma as gentes se foram e as portas de repente se devem ter fechado e quiçá por um mecanismo silencioso de última geração e também provavelmente as luzes com discrição se atenuaram não obstante imperceptível já que ainda agora se pode ler confortável e assim mais luz não será jamais necessário. Portanto: nada ouvi e nada vi; mas venho de sugerir um como que me bastará e ao leitor também.
Cá estou e sozinho: o possível paraíso: trancado na feira de Frankfurt e com iluminação suficiente: o possível paraíso.
(Estou mesmo só e até o final só estarei – esclareço: é o que me serve e assim me sirvo dos elementos de um conto fantástico: estou só e não haverá até o final policiais ou seguranças ou outros que cá por acaso se viram trancados comigo e muito menos mulheres gostosudas com quem treparei sobre pilhas de livros. Estou só: a sorte é minha ou talvez o azar).
Experimento agora a sensação de que as gentes se extinguiram e que no entanto a biblioteca para sempre permanecerá: a reunião de livros infinitos em que me acho: eu: deliciosamente egoísta. Preciso então me fazer render e para tanto me organizo: passo muito mais tempo a definir o que jamais lerei que a ler de fato e cá de outro jeito não procederei. Sou um preconceituoso e muito me agrada estabelecer o que é ruim sem jamais ler o que é ruim. É útil. Abro assim espaço silencioso e familiar onde antes havia pressão e ruído: o meu espaço íntimo no infinito e a partir do qual desenvolverei o gosto ou, menos racional, a partir do qual o paladar me tomará e então virão mais escolhas e mais definições sobre o que não ler. Acredito imensamente na generosidade da leitura – e é assim: um livro nos pode sempre levar por afinidade a um próximo e não é de outra forma que surgem as bibliotecas honestas: Borges a me levar a Cortazar e a Casares e a Rulfo. É preciso no entanto ajudar e daí as picadas na mata e a abertura do clarão. O caminho e o paladar a partir da exclusão. A honestidade passa pelo não gostar e me ocorre agora: passa também pelo politicamente incorreto de uma metáfora que derruba árvores. Cercado pelos livros infinitos e absorvido pelo objeto livro: preciso podar a angústia.
(Não creio enfim sob o risco de elitizar o fantástico que um livro possa ser adquirido sem reflexão. Nunca possuí um livro sem que para tanto houvesse meditado, sem que o movimento de à minha coleção somar um novo volume tivesse um critério e por mais que esse jamais deixasse de ser pessoal e para muitos felizmente esdrúxulo. Não creio que se possa comprar sob o mesmo espírito um livro e um tubo de pasta dental mas nada tenho contra que se manuseie um livro tal qual um tubo de pasta dental: sou pela humanização do livro assim como pela consagração da leitura).
Não chego a imaginar luxúria maior que essa de estar só entre os livros infinitos. Passeio pelos estandes, pelos pavilhões. Passeio pelo universo e me dispo. Sim: exagero-me: estou nu a caminhar pela feira de Frankfurt toda minha que é também o universo ao menos o universo que me interessa. Examino volumes, meço o tato das folhas, cheiro-as na cata de um meu vício que é o odor do papel donzela cujo cabaço violo de nariz ereto enquanto o pulmão se infla e a murchar não chega já que em outro livro estou e então é assim que as horas talvez passem.
(Há entre centenas de vantagens de estar só aqui e de sozinho poder ler uma que quero mencionar: incomodam-me as gentes que me interrompem a leitura e que o fazem seguras de que não atrapalham posto que têm mui arraigada a idéia de que enfim ler não é nada ou ao menos nada que não se possa interromper).
Há qualquer coisa de indecente em imaginar que tudo aqui em livro possa encontrar e que essa é a característica do infinito: especializar-se à coronária da perversão; desdobramentos livres de resistência a fazer nascer em cadernos impressos o desespero do desejo humano. Apraz-me de início esse ilimitado mas de súbito entretanto penso na impossibilidade e então retomo a angústia que é o meu desespero e que ela cá fique nua como nu estou: nunca me foi tão evidente a impossibilidade e nunca ela foi tão violenta e grita e berra e chacoalha as imensas tetas que cospem leites cremosos sobre o corpo nu que é meu e assim prefiro: o leite sobre minha cabeça se assim os livros não se sujarem e nem de respingos: poder ler tudo sob a luz feita suficiente no conto fantástico e no entanto: não. A impossibilidade que é ter de optar.
Tenho uma biblioteca em casa e é provável que adquira livros todos os dias ou que desejasse assim proceder: o que resulta igual aliás: a biblioteca que cresce embora talvez em ritmo não o ideal e mesmo que se considere os livros roubados. Sim: eu quero sempre mais e roubo livros e cá outra coisa não farei: furtarei livros em Frankfurt e devo logo escolhê-los já que estou nu e bolsos não tenho. Mais uma vez: o limite que é ter de optar.
(Poderia classificar a minha biblioteca a partir da maneira como adquiri os volumes e haveria então a estante para os comprados novinhos, para os usados, para os conquistados por troca, para os recebidos novos de presente, para os recebidos usados de presente e também para os roubados – várias estantes para esses e necessariamente subdivididas: os roubados em livrarias, os roubados em casa, os roubados de amigos, os roubados emprestados etc. Agora uma nova categoria se impõe: os roubados na feira de Frankfurt; categoria a ser no futuro ampliada já que onde passa boi passa boiada: os roubados em feiras do livro: a futura nova categoria).
Em outras palavras: a biblioteca precisa crescer e não admito juízo de valor sobre um movimento que me é absolutamente irracional: o roubo: livro é posse e de outra forma é quase livro – sempre. Talvez assim explique por que embora seja fascinado pelos seus acervos nunca me atraíram como espaço de leitura e consulta as bibliotecas públicas. O livro tem de ser meu já que dele sou – e aí: de repente: um pouco de moral: a fidelidade. E mais um pouco de moral: se roubar irei talvez deva roubar das grandes editoras e assim me ocorre darei um pouco de tinta vermelha a este conto fantástico de pegada reacionária. Roubarei então a edição bacana de “O vermelho e o negro” que a Gallimard faz pouco lançou. (Aliás: corrijo-me: trata-se de um conto fantástico: sem certezas: ou seja: não sei se foi mesmo a Gallimard mas o roubo continua). Agirei como Robin Hood em causa própria e é provável que Stendhal não se agrade de meu afanar provinciano. Não importa: geralmente decepciono-me ao descobrir o caráter humano mesquinho dos escritores e deles só me interessam as fofocas miúdas – a sacanagem: quem comeu quem; quem era alcoólatra; quem era tarado; quem traiu quem; quem era viado.
Percorro um volume em búlgaro do “Trópico de Câncer”: o centro da verve! O livro de Miller me é uma obsessão e uma de minhas mais caras coleções o reúne em várias edições e em várias línguas. Gosto de uma tal biblioteca de babel e gosto sobremaneira de não poder ler em búlgaro. É a força do livro, do objeto livro: colecionar igualmente o indecifrável. A edição búlgara roubada em breve na estante de minha biblioteca e de súbito o apego: não posso ler em búlgaro mas se me tirarem o livro de seu abrigo eu imediatamente notarei e será grande o incômodo e posso até matar: é a intimidade com a biblioteca que é também afeto visual: a biblioteca potencial motivadora de assassinatos.
Admito que enfrento já um cansaço e menos físico que intelectual. Sento-me no entanto de modo a fazer valorizar o primeiro. (Pegará mal reconhecer que mais não tenho a dizer e que talvez até me ponha dormir depois do ponto final)? (Não: seguirei a ler depois do ponto final mas assumo: mais não tenho a dizer). (Gosto de imaginar ter escrito até aqui um conto fantástico egoísta que de conto tem muito pouco mas talvez o uso da forma conto me tenha sido útil à intenção de sobre os livros escrever e assim quem sabe o egoísmo passe por excêntrico e o conto passe por conto).
Sento-me portanto e o tapete grosseiro do chão me pinica a bunda e as pernas e o alongado do saco que por fim roça o carpete. É uma imagem pouco fantástica para com a qual o conto encerrar e é com certeza uma imagem do paraíso: estou nu sentado no chão e com as partes a coçar cercado do infinito a ler sob a luz justa o fininho porém abundante “Sobre a leitura” do Proust recém-roubado.


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