por C.A. - Segunda-Feira, 21 de Marco de 2005, às 18:53
O Leblon está chatinho; e a cada dia mais: chatinho. É a tirania das coroas quase gostosas a fim de um garotão: o quilo da salada a cinqüenta reais. (O garotão todavia há de sair mais em conta: a crise está brava e ninguém faz dinheiro da areia). (Desconfio da mulher coroa ou não que sai com um homem que veste camisa regata: existem falhas de caráter intelectualmente imperdoáveis). (Fisicamente no entanto: tudo se pode perdoar: inclusive a mulher que sai com um homem que veste camisa regata).
Agora é a livraria Dantes que fecha as portas no Leblon; vai pra Cinelândia – o que naturalmente significará se enterrar: a opção pela morte ou mais humilde: pela morte aos meus olhos já que lá não vou.
(Imagino de repente a livraria insuportável – a seleção; o escrete: estantes e mais estantes de coletâneas de crônicas do Jabor, do Cony, do Veríssimo, do Dapieve e da Cora Capivara Rónai – a suprema livraria insuportável). (É curioso: essa povanca toda escreve em jornal e no entanto o preço da assinatura aumenta: o Zuenir Ventura nos deveria aliás pagar para que o lêssemos).
A Dantes deixa o Leblon incapaz de se manter – é o que enfim importa: a incapacidade. Livros usados não combinam com a despegada asséptica de um bairro em que cresce por exemplo a livraria rasa Letras&Expressões: das luzes de consultório médico – talvez de um dermatologista afetado; a ante-sala de um dermatologista afetado: em que se encontram também revistas e jornais.
Estou triste. Gosto do exotismo da Dantes entre as bestas tortinhas de microondas do Ateliê Culinário e a sofisticação saudável do Hortifruti. A Dantes: onde comprei por sete reais o teatro completo do Marivaux, por um e oitenta as “Inquisiciones” do Borges, por três o “The diamond as big as the Ritz” do Fitzgerald etc. Ah: a Dantes onde comprei “O reacionário” do Nelson Rodrigues com dedicatória do autor para algum coitado cuja filha imbecil após sua morte provavelmente repassou o volume. Gosto de imaginar o percurso dos livros e agradeço sempre o ilimitado da idiotice: é graças a ela que coleciono preciosidades.
(Estou na rua Dias Ferreira e vejo já ao longe o flanelinha do “vaga-certa” encostado a batucar no meu carro: perguntar-lhe-ei se o couro de cabrito da lateral do meu automóvel está bem afinado – mas é provável que ele não entenda).
Gosto também da Argumento – ou gostava. Lá: faz tempo não entro. É inaceitável que uma livraria ponha seguranças na porta. Assim: não posso mais roubar livros.
(Vamos estabelecer o seguinte – fora do tema; para dar uma respirada: a mãe é cantora de sucesso embora decadente. Quero perguntar: se a filha fizer sexo ouvindo o disco da mãe, será incesto)?
A Dantes acabou – ou pior: acabará. Não há futuro pior que aquele em que uma livraria se fecha.


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