por C.A. - Segunda-Feira, 28 de Fevereiro de 2005, às 19:20
Aqui me ponho: sou o narrador – em primeira pessoa: o comandante. Sugiro ao leitor a seguir algumas reflexões sobre a minha condição: de narrador. Mais: sugiro ao leitor não esperar muito do que virá; sugiro mesmo ao potencial leitor que não insista na leitura – que pare já: não valerá o movimento de fazer arder a vista num conto escrito para a internet em que o narrador narra em primeira pessoa e sobretudo narra a si. Desconfio de narradores em primeira pessoa. Eu: narrador em primeira pessoal e de outra forma hoje não: sou e estou só: desconfie.
******
Reflita o leitor: sou e estou só. Mais alguns elementos já que é provável não existe a solidão total: estou nu quase sentado num sofá novo talvez bonito e iluminado pela luz fria e honesta: não é uma imagem agradável – não é. Descrevo-a pelo prazer do desalinhado e também de modo a desencorajar o leitor de continuar – a imagem: estou só e é quase só: olho-me nu e é a medida do desajuste: a gordura que sou exposta e se me mexo são as dobras na cintura que saltam e o acumular guloso de uma espécie quero crer masculina de celulite. O resto do batuque: a barriga se pendura mole e quando puxo o ar só me resta lá embaixo a cabeça do pau encostada a pedir alento e enfim a recebê-lo do sofá novo talvez bonito.
******
Agora: chupo uma manga nu – a posição do corpo é sempre a mesma. É um hábito meu: chupar manga nu e observar o suco escorrer, entre tantas possibilidades, por um caminho do corpo, encontrando resistência nos pêlos grossos do peito mas, por fim, vencendo-os num rastro que a luz faz brilhar dourado e então me apraz quando se deita a seiva entre os pentelhos e toca a base do pau – o suco: a conseqüência às vezes é uma ereção: e é um milagre: a ereção mais pura: a ereção pelo toque da natureza: fruto do suco da manga.
******
Gosto também dos fiapos da manga que ficam entre os dentes: não tenho pressa em tirá-los: não tenho pressa e o leitor também não tenha: este é um conto sem pressa. Um conto do paladar. Gosto do aspecto selvagem que tenho agora ou que imagino ter: e se não há pressa – há: imaginação ou um esforço em tal direção. É bom o cheiro da manga trepado no meu suor. É curioso: a memória que tenho é olfativa e as minhas lembranças são coleções do suor. Daí as misturas: a coleção aumenta e principalmente não enjôo: ou evito a previsibilidade ou creio evitá-la.
(Não: não são as estrelinhas agora, não). (Pretendo alternar o ritmo, firme na intenção inicial a qual já não repito).
É difícil justificar o que faço sentado nu, lambuzado de manga, e de pau já de novo murcho, só a cabeça de fora, às quinze horas de quinta-feira. Mas: não tenho trabalho e até o final deste conto: não terei trabalho. Também: não matarei ninguém – e nem a mim. Talvez: todavia: descasque outra manga.
*******
O leitor se pergunta agora ou, se não se pergunta, eu o narro a perguntar como faço para comprar mangas – com que dinheiro? Não: não planto mangas no meu jardim. Não tenho jardim nem flores de plástico e de natural só chupo mangas e tenho leves ereções por conta delas. A ordem é a seguinte: ganhei uma herança inesgotável de meu pai: um sujeito que não conheci ou que prefiro escrever que não conheci e que morreu um dia e nesse dia ou no seguinte, sei lá, deram-me o dinheiro, vivo, na mão, em espécie: de uma vez – milhões. Sou rico e não tenho nada que interesse ao leitor: não tenho um iate nem dou festas em que putas orientais esfregam as bocetas na minha cara até arderem no trato da minha barba de quatro dias: tudo é conseqüência.
********
Não sou um tipo muito afeito a desdobramentos. Se tudo é conseqüência – o leitor entende: fico do lado do nada ou mais uma vez me esforço. Por isso reduzo o cenário: o leitor reparou: não há e não haverá aqui casa, jardim, porta, rua, gente: não haverá sexo também. Não haverá. Proponho a literatura clean: a luz fria, eu, o sofá e as mangas. Reduzo o cenário e os atores para evitar deslizes: quero concentração e o leitor honestamente não é confiável: o leitor não tem o hábito da abstração: o leitor é fraco.
Sobre não fazer entrar outros atores, outras personagens – desenvolvo: quero evitar considerações tolas e portanto os atores estão definidos de contar na mão. Explico por motivo de clareza o que me é consideração tola: o talento do narrador pode ser posto à prova se necessário for descrever personagens: descrever, vá lá, a alma de uma personagem: não quero testes e para tanto convém afastar ou retardar os clichês: revisto-me de estilo: literatura clean: nada de clichês: o narrador maduro ou remediado: nada de clichês. Posso mesmo dar exemplos. Houve um tempo talvez distante em que em eventos sociais julgava – e portanto narrava – as pessoas pelo cumprimento ou assim iniciava a descrição. Nesse tempo: tinha ojeriza aos que apertavam a mão sem pegada e isso amesquinhava a narrativa de tão sem importância: eram os viadinhos: os inseguros: os que apertavam de mão frouxa. Mas isso é muito pouco literário. Enojavam-me também as piranhas que cumprimentavam com beijinhos e faziam barulinhos de beijo como se dublassem para um filme brasileiro cafona talvez “Tieta”. Mas é tudo isso muito pouco literário. Entenda o leitor: cumprimentos não servem à literatura e principalmente quando cumprimentos de fraqueza: o que satisfaz a miséria do homem não satisfaz a literatura – ou ao menos a minha literatura clean.
Sim: antes das estrelinhas: não há nem haverá neste conto diálogos: o leitor por favor adapte as explicações.
******
Estou do lado do nada: nu do lado do nada e ainda não descasquei a segunda manga: é tudo muito promissor.
******
De modo a movimentar a trama: tudo é técnica: domínio do métier: mudo a posição do corpo: estou deitado agora e é o exemplo humano do espalhar: eu deito e o meu corpo se espalha: a banha que se ajeita, que encontra conforto e a minha superfície é agora imensa e se toco na barriga sinto e sobretudo vejo a vibração da gordura: gasto alguns minutos talvez algumas horas na brincadeira de fazer ondas de banha. Às vezes outras tantas horas eu dedico ao meu pau e assim quando me deito ele se deita também no entanto de lado caído pra esquerda e é então que observo a veia grossa verde que percorre o meu pau e ela tem força – a veia: e fico orgulhoso da veia grossa do meu pau.
O orgulho é sempre questionável: é preciso podar o orgulho. Por comparação: tinha, naquele tempo de eventos sociais em que narrar era mais complexo tantos eram os elementos e atores etc., tinha naquele tempo orgulho do meu aperto de mão vigoroso. O leitor pense: não pode resultar boa a narrativa de um narrador de aperto de mão vigoroso, e que se orgulha do aperto de mão vigoroso, e para quem os que não apertam a mão de acordo com o modelo macho são afeminados. É preciso restringir a selvageria: nada além de fiapos de manga entre os dentes. É preciso como cá tenho insistido: reduzir, enxugar os elementos, as preferências. É preciso radicalizar: não mais apertar mãos. Eu não aperto mãos – mais: não. É um dado evidente: aperto de mão forte ou fraco exige outro ator e aí: complica.
******
Repare o leitor uma vez mais na técnica: o anti-clímax: não descascarei a segunda manga.
******
Resta entretanto a pressão do leitor para que o narrador faça alguma outra coisa – um gesto brusco, um grito, esguichos de sangue: o leitor não se concentra se não houver ação: não tem solução: tenho o leitor em baixíssima conta.
Sim, é isso: o leitor espera e mais: o leitor quer que eu agora pegue o meu pau desde a base e comece a acariciá-lo primeiro lentamente e, depois, no ritmo da rocha que se infla e mais e mais forte a percorrer o pau da base à cabeça inchada, e o corpo do pau tomado de veias, elas agora quase outros paus ou quiçá paus auxiliares e é a potência entre os dedos a experimentar o diâmetro da mão – não. Não vou cá me masturbar. Não vou. Não creio em desejos do leitor e principalmente obedeço aos limites do meu aprendizado: não sei me masturbar; nunca me masturbei; nunca sequer tentei me masturbar. Não sou um tipo das conseqüências – é sabido: estou do lado do nada ou me esforço ao menos em tal direção.
No entanto: gozo: gozo quase todo dia: e gosto: gosto de acordar de manhã ou no meio da madrugada e descobrir sob o meu corpo um pouco acima do umbigo a meleca úmida da minha porra cuspida durante o sono no lençol portanto descabaçado.
Durante o sono: é assim a ejaculação no conto do paladar.


deixe seu recado