por C.A. - Segunda-Feira, 13 de Setembro de 2004, às 19:03
Licencioso leitor tribuneiro, está candente em minhas mãos (e a venho sorvendo diariamente) a sobretudo divertida Antologia pornográfica, organizada pelo meu amigo e grande poeta Alexei Bueno – e surpreendentemente bem editada pela Nova Fronteira, coisa rara, com destaque para o projeto gráfico do referencial Victor Burton: sugestivo na capa e sacanamente explícito no que vem já em seguida.
É um livro e tanto. Partindo do legendário satírico baiano Gregório de Mattos, o “Boca do Inferno” (importante também para a fixação da música popular brasileira tal qual a conhecemos hoje), e mergulhando longamente na cama-mãe portuguesa, dos versos prostitutos do poeta fescenino Antônio Lobo de Carvalho e do mítico Bocage entre outros tarados lusos imortais, termina cheio da verve escatológica no Brasil contemporâneo, com o mestre da coprofilia Glauco Mattoso – mas não sem antes oferecer um orgasmo: o poema “A cópula”, do imprescindível erótico Manuel Bandeira!
Recomendo esta Antologia pornográfica com depravação intelectual: a introdução do formidável Alexei, bem-humorada e riquíssima de informações sem ser pretensiosamente didática, discorre com elegância também sobre os critérios de seleção e sobre a característica propositadamente chula das obras – mas principalmente incumbe-se de valorizar um gênero poético fundamental desde sempre marginalizado, e ainda mais na península ibérica de rançosa tradição inquisitorial. (Não surpreende aliás que seja o clero personagem em vários dos poemas).
Crente que sou na fé libertadora da arte pornográfica, louvo o trabalho de fôlego do corajoso amigo Alexei Bueno e reforço que, apesar da temática grosseira talvez camuflar o talento e a técnica, são poemas escolhidos por suas qualidades formais os que compõem esta Antologia pornográfica – quase todos bons, alguns mesmo excelentes, desconhecidos no entanto por força de preconceitos e ignorâncias desde a maçã estabelecidos.


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