por C.A. - Quarta-Feira, 14 de Julho de 2004, às 19:00
O roque completa cinqüenta anos de existência e temos muito a festejar aqui no Brasil: embora haja ainda lamentavelmente roqueiros brasileiros (Branco Melo, Erasmo Carlos, Evandro Mesquita, Léo Jaime, Lobão – a seleção da decadência, com ou sem barriga), não há roque. Nunca houve um roque brasileiro, apesar da propaganda competente do Arthur Dapieve. Nunca houve um amontoado nacional de ruídos distorcidos em altíssimo volume capaz de ser criativo; capaz de assumir um estilo próprio, capaz de resultar num movimento, numa inovação, num desenvolvimento orgânico a partir da origem – nunca.
O roque no Brasil foi moda passageira, como a lambada e o Renato Russo: resumiu-se à eufórica cópia sem critérios da matriz estrangeira por fãs filhos de funcionários públicos do segundo escalão de Brasília e pela pequena burguesia mimada carioca, tendo estes em comum com os gringos ídolos tão somente a morte prematura por overdose ou doenças sexualmente transmissíveis.
O roque no Brasil foi só angustiada atitude roqueiro-adolescente importada: jaquetas de couro puídas (a pop-embalagem), melodias requentadas, letras egoístas naturalmente na primeira pessoa (e num português indigente), quilos de pó na lata e não por acaso o picadeiro cômico do Circo Voador como ambiente.
O roque no Brasil foi moda e já passou. Como se vê, temos muito a festejar.
Nota de rodapé: mostra-me o nosso Pim monumental uma reportagem em que o juiz Siro Darlan diz que se fosse Cazuza negro e favelado, e com a mesma atitude, em vez de mito, seria bandido. Concordo e desenvolvo: se com a mesma atitude fosse Cazuza negro e favelado, seria ele um tipo menos valente de Madame Satã.


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